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quarta-feira, 10 de junho de 2026
Canto XI: O Eco do Cosmos e a Máscara do Tempo
Canto XI: O Eco do Cosmos e a Máscara do Tempo
Por Emanuel Bruno Andrade
Inspirado no Tomo II d’Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões, no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (10 de Junho de 2026)
Rasga-se o céu do velho mundo não por raios de Júpiter ou tempestades de Baco, mas pelo ferro ardente que os homens inventaram. Em continentes distantes, os mísseis cruzam o firmamento como estrelas cadentes da morte, deixando atrás de si um rastro de sangue derramado, infraestruturas reduzidas a pó e corações permanentemente sobressaltados, destroçados pela perda cruel dos tempos e das vidas. O eco dessas explosões viaja pelo mar que Camões outrora cantou, batendo nas praias de uma pátria que assiste, impotente, ao luto do mundo.
Em Portugal, terra de brandos costumes e fados antigos, não reina a infâmia das bombas, mas sim uma guerra silenciosa e invisível: a consequência da inflação que corrói os lares, gerando uma fraqueza que se estende do bolso à alma, e uma preocupação constante que nubla o olhar do povo. Os tempos mudaram, e mudaram muito. As almas dos homens pedem agora um socorro urgente, um grito mudo que ecoa nas cidades e nos campos, enquanto noutros cantos do peito reina apenas a saudade daquela paz interior que parece ter partido sem aviso.
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", dissera o velho mestre. Mas hoje, o clamor é por abrigo na tempestade da existência.
À margem do caos, os pensantes — poetas, filósofos e loucos — falam alto. Erguem as vozes nas praças e nas redes da grande teia global, denunciando sem medo as feridas abertas dos amantes, os laços rompidos pela distância e a frieza de uma era hiperconectada, mas profundamente isolada. No Olimpo moderno, as Deusas já não descem à terra para guiar os navegadores. Guardam-se num código sigiloso, trancadas a sete chaves nos seus segredos mais íntimos, com medo da entrega total. Contudo, o sopro do céu não as esquece: eleva-as, coloca-as num plano sagrado, divino e intensamente desejado, onde a arte e a beleza permanecem puras, intocadas pela barbárie humana.
Na ágora da civilização, fervem as discórdias pelo tempo fora. São as razões discretas e solenes das políticas do método, encenadas numa democracia que se veste de gala, mas que surge mascarada pelo capitalismo feroz — aquela promessa idealizada onde cada cidadão deveria poder constituir a sua riqueza livremente, sem nunca prejudicar terceiros, mas que tantas vezes se perde na ganância. Cada político ergue-se como um artilheiro de contradições, disparando promessas falsas de um palanque de ilusões. Sob as suas ordens temerosas, correm logo os soldados da engrenagem social, marchando cegamente rumo ao desconhecido.
E enquanto a Terra sangra e se debate nas suas próprias amarras, o homem olha para cima. Numa audácia que faria empalidecer os marinheiros da Carreira da Índia, sobe o foguetão rumo à Lua! Os novos navegantes cruzam o éter, procuram conhecer Marte, decifrar os segredos de um cosmos infinito. É a eterna e desesperada procura da origem, a busca pelo primeiro sopro de vida no vazio estelar. Navegamos pelos oceanos de estrelas, estendendo as telas da inteligência e da tecnologia, com um único e supremo múnus: expandir a consciência humana e desvendar o infinito, sem nunca deixar que o próprio universo nos engula na sua imensidão escura.
Lisboa, 10 de Junho de 2026
Na fusão do traço, da palavra e do infinito.
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