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sábado, 29 de agosto de 2026
A POUSADA DO VIVER
A POUSADA DO VIVER
Emanuel Bruno Andrade
Andamos por caminhos com limites, muitas vezes bloqueados pelo ruído do mundo. Caminhamos entorpecidos por este e por aquele, levados por correntes que nem sempre reconhecemos, à deriva, procurando um lugar onde pousar a alma e saciar a sede do viver.
É uma busca incessante pelo tudo e pelo nada. Procuramos fora aquilo que tantas vezes nos falta por dentro, tentando preencher um vazio que parece não conhecer a palavra suficiente. E quanto mais procuramos, mais caminhos se abrem diante de nós; quanto mais possuímos, mais alguma coisa parece faltar.
Há dias em que nos sentimos saciados, como se finalmente tivéssemos encontrado a fonte. Outros há em que permanecemos secos, mesmo depois de atravessarmos desertos inteiros à procura de nós próprios. Bebemos da vida, mas a sede permanece, porque talvez a verdadeira sede não seja de possuir, mas de compreender.
Procuramo-nos nos rostos que encontramos, nas palavras que nos dirigem, nos olhos que nos reconhecem. E quando alguém nos saúda, mesmo que seja apenas por um instante, há nesse gesto uma pequena confirmação da nossa existência: eu estou aqui, alguém me viu, eu existo.
Talvez seja essa uma das maiores necessidades humanas: sermos contemplados para nos reconhecermos. Não pela vaidade de sermos vistos, mas pela profunda necessidade de sentir que a nossa passagem pelo mundo não foi completamente invisível.
Mas a vida não nos promete caminhos planos.
Há quedas. Há imprevistos. Há portas que se fecham quando julgávamos ter encontrado a saída. Há momentos em que perdemos o equilíbrio e tocamos o chão com a dureza da realidade.
E, contudo, levantamo-nos.
É precisamente no gesto de nos levantarmos que descobrimos uma verdade que tantas vezes esquecemos: ainda estamos vivos.
A queda não é apenas o fim de um passo; pode ser o começo de uma nova consciência. O chão ensina aquilo que o voo, por vezes, não consegue ensinar. Quando nos levantamos, trazemos connosco as marcas da queda, mas também uma visão diferente do caminho.
Talvez viver seja isso: caminhar entre limites, atravessar o ruído, perder-nos algumas vezes, procurar incessantemente, encontrar-nos por instantes e voltar a perder-nos.
E talvez não exista um lugar definitivo onde pousar.
Talvez a pousada que procuramos seja o próprio caminho.
Porque viver não é finalmente encontrar tudo aquilo que procuramos.
Viver é continuar a procurar, mesmo quando a sede permanece; é reconhecer-nos no olhar do outro; é cair sem desistir de levantar; é descobrir, depois de cada queda, que o simples facto de ainda podermos erguer-nos é já uma forma silenciosa de dizer ao mundo:
Estou vivo.
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