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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O Peso do Mundo e a Palavra

Estou sozinho na busca da vida. Vejo e faço que não vejo. Sinto a dor do pulsar dos tempos, esse movimento invisível que atravessa o homem, a sociedade e a própria existência. Choro por dentro, muitas vezes em silêncio, porque há dores que não encontram lágrimas suficientes para se exprimirem. Nesta desmedida corrida da vida, encontro agora um tempo de repouso em relação ao movimento. E é nesse aparente silêncio que nasce a reflexão interna. Quando o corpo repousa, a consciência continua a caminhar. Quando o mundo se cala, dentro de nós começam a falar as perguntas. Sinto, no meu íntimo, o peso do mundo sobre os meus ombros. E não penso simplesmente por pensar. Penso porque existir é questionar. Penso porque viver é procurar respostas para perguntas que, muitas vezes, não possuem uma resposta definitiva. Há momentos em que me sinto inconsciente pela própria entorpecência do mundo. Somos envolvidos por estímulos, desejos, necessidades, conflitos e ilusões. E, nesse estado de adormecimento coletivo, lembro-me de Freud e das suas reflexões sobre o ser humano, sobre o inconsciente, sobre o desejo e sobre aquilo que, tantas vezes, escondemos de nós próprios. Freud colocou o desejo sexual num lugar fundamental da compreensão do comportamento humano. E surge então a pergunta: porquê? Eis o ponto da questão. Talvez porque somos humanos. Talvez porque carregamos em nós a memória primordial de Adão e Eva, símbolos da humanidade diante do conhecimento, do desejo e da transgressão. Desejámos comer da árvore do conhecimento. E comemos. A partir desse gesto simbólico, o homem passa a procurar aquilo que está para além de si. Quer conhecer, compreender, dominar, transformar. Quer crescer. Quer aproximar-se do divino. Quer tornar-se semelhante àquilo que considera a perfeição. E aqui surge uma das maiores contradições da existência humana: fomos feitos à imagem e semelhança de Deus e, simultaneamente, queremos ser como Deus. Ambicionamos crescer. Ambicionamos criar. Ambicionamos salvar. Ambicionamos ser salvadores das nações, construtores de mundos, donos da razão e, por vezes, até donos do destino dos outros. Mas há um porém. Apesar de sermos seres temporais na carne, existe em nós uma dimensão que ultrapassa o corpo. O espírito não se reduz à matéria. A carne nasce, cresce, envelhece e morre. O corpo é passagem. O espírito, para aquele que crê, pertence a uma dimensão que não termina simplesmente com a morte física. É a carne que cai. É a carne que peca. É a carne que encontra pedras de tropeço no caminho. E somos nós próprios, através dos nossos atos, que muitas vezes construímos a nossa destruição. Morremos um pouco a cada segundo quando nos afastamos daquilo que reconhecemos como verdadeiro, justo e essencial. A morte física é apenas o limite visível de uma existência que já passou por muitas pequenas mortes. Morremos nas escolhas. Morremos nos erros. Morremos nas palavras que ferem. Morremos na ignorância voluntária. Morremos quando deixamos de procurar. Mas também podemos renascer. Renascemos quando reconhecemos o erro. Renascemos quando aprendemos. Renascemos quando compreendemos que não somos donos absolutos da verdade. Nesta passagem temporal, encontramo-nos divididos pelo indivíduo e pelo coletivo, por pequenos grupos e grandes grupos, por aquilo que posso compreender como microgrupos e macrogrupos. O ser humano constrói comunidades, sociedades, culturas, famílias e sistemas de pensamento. Mas, dentro de cada grupo, continua a existir um indivíduo. E esse indivíduo é único. É nesse espaço interior que surgem os sonhos, as visões, as perceções, a sensibilidade e aquilo que cada pessoa interpreta como uma capacidade especial de sentir o mundo. Há pessoas que parecem ouvir aquilo que outros não ouvem. Há pessoas que percebem aquilo que outros ignoram. Há pessoas cuja sensibilidade parece ultrapassar os sentidos imediatos. Seja pela hereditariedade, pela árvore genealógica, pela educação, pela experiência ou pela própria constituição individual, somos atravessados por histórias que começaram antes de nós. Somos continuidade. Carregamos memórias familiares, culturais e emocionais. Somos filhos de uma história que não começou no nosso nascimento. E talvez seja por isso que somos seres tão complexos. Não somos apenas aquilo que pensamos ser. Somos também aquilo que herdámos, aquilo que aprendemos, aquilo que esquecemos, aquilo que reprimimos e aquilo que ainda estamos a descobrir. Como já referi num texto há algum tempo, o ignorante pode ser inteligente e o inteligente pode tornar-se ignorante. Aquele que reconhece que é ignorante possui espaço para aprender. Aquele que acredita saber tudo fecha a porta ao conhecimento. E aqui encontro uma das maiores ironias da inteligência humana: quanto mais julgamos possuir a razão, mais podemos afastar-nos dela. O verdadeiro conhecimento começa muitas vezes pela humildade de dizer: Eu não sei. Porque quem diz “eu não sei” abre uma porta. Quem diz “eu sei tudo” constrói uma parede. O certo é que não nos conhecemos verdadeiramente se não nos explorarmos interiormente. Somos, em muitos momentos, uma caverna dentro de nós mesmos. E lembro-me de Platão e da alegoria da caverna: sombras projetadas sobre uma parede podem ser tomadas pela realidade por quem nunca saiu da escuridão. Quantas sombras confundimos nós com a verdade? Quantas ideias herdadas tomamos como nossas? Quantas vezes vemos apenas aquilo que fomos ensinados a ver? Talvez a libertação comece quando nos voltamos para trás e questionamos a origem das sombras. A consciência forma-se porque aprendemos e desaprendemos. Aprender é construir. Desaprender é destruir algumas construções para poder reconstruir melhor. E nessa jornada temporal existe uma transformação permanente: o imaterial procura tornar-se material, o pensamento procura tornar-se ação, o sentimento procura tornar-se palavra e a palavra procura tornar-se realidade. Por isso, a palavra não é pequena. A palavra pode construir. A palavra pode destruir. A palavra pode levantar um homem caído. A palavra pode condenar. A palavra pode amar. A palavra pode ferir. A palavra pode salvar. E talvez seja precisamente aqui que encontro o centro desta reflexão. Pela palavra morremos ou vivemos. Antes de existir o gesto, muitas vezes existe o pensamento. Antes de existir a ação, existe a intenção. Antes de existir a realidade exterior, existe alguma coisa dentro de nós que procura manifestar-se. O verbo faz-se carne. O pensamento transforma-se em realidade. E aquilo que pronunciamos pode tornar-se parte do mundo que construímos. Por isso, devemos ter cuidado com aquilo que pensamos, com aquilo que desejamos e, sobretudo, com aquilo que dizemos. Porque somos seres em construção. Somos matéria e espírito. Somos memória e futuro. Somos ignorância e conhecimento. Somos queda e possibilidade de redenção. Somos sombra e procura de luz. E talvez a maior viagem da vida não seja conquistar o mundo exterior, mas entrar na profundidade de nós mesmos e descobrir quem somos quando todas as máscaras caem. É nesse lugar interior, silencioso e por vezes doloroso, que começa verdadeiramente o conhecimento. E talvez seja aí que o homem descubra que procurar Deus não é apenas olhar para o céu. É também olhar para dentro. Porque, se fomos feitos à Sua semelhança, talvez exista dentro de nós uma pergunta eterna que nunca deixará de procurar a resposta: Quem somos nós diante daquilo que somos chamados a ser? E essa pergunta permanece. No silêncio. Na dor. Na consciência. Na palavra. Na vida. E na eternidade.

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